Manifesto por Plena Soberania Nacional
Por Roberta da Horta
Todo povo precisa de um símbolo que o recorde de quem é e para onde deseja caminhar. Convoco um patuá linguístico para nos unir nesta luta ancestral. Chamei-o de Brasilismo.
O Brasilismo é a sofisticada autodeterminação comunitária. Muito mais do que uma proposta política, é um projeto de plena soberania nacional, fundamentado na memória ancestral, na justiça econômica e no compromisso de alimentar e nutrir todas as formas de vida do povo cearense e brasileiro.
Autodeterminação é o direito de um povo decidir o próprio destino. Como afirmou a deputada federal Célia Xakriabá: “Antes do Brasil da Coroa, existe o Brasil do Cocar.” Soberania é transformar direitos em realidade, garantindo água e alimentos seguros, saúde única, educação pública integral, ciência, cultura, trabalho digno e proteção da biodiversidade.
Sou Roberta da Horta, descendente do povo Kariú-Kariri, do Dragão do Mar e dos jangadeiros do Mucuripe. Antes mesmo do meu nascimento, minha família conheceu o desalojamento. Em 1971, durante a ditadura militar, meu avô, homem negro, morador e pescador de jangada da Praia do Mucuripe, foi retirado de nossa casa — que havia recebido energia elétrica pouco tempo antes — e levado para um barraco de madeira e lona, a mais de doze quilômetros do mar que sustentara nossa família por gerações. Antes de nascer, tentaram roubar o meu futuro.
Quando compreendi essa história, escolhi transformá-la em esperança e luta. Infelizmente, essa realidade continua atingindo povos indígenas, quilombolas, pescadores, camponeses e populações deslocadas por guerras, conflitos e expulsões territoriais em diferentes partes do mundo. Nossa história não pode continuar sendo escrita pela lógica da violência, da escassez e da desumanização. Pergunto: quem é Américo Vespúcio diante dos povos originários deste continente? Em 2021, na abertura da COP26, Txai Suruí lembrou ao mundo: “Tenho apenas 24 anos, mas meu povo vive há pelo menos seis mil anos na floresta Amazônica.” Essa memória também é soberania. Acreditamos na Segunda Abolição Cearense e Brasileira: uma nova etapa da nossa história, capaz de superar a fome, a miséria, o racismo, a violência contra as mulheres, a destruição ambiental e todas as formas de exclusão herdadas da colonização e da desigualdade.
Nossa Revolução Brasilista começa pelo bucho, pela soberania alimentar e nutricional. Venha conosco. Vamos proteger nossas sementes crioulas, reconhecer as plantas alimentícias que crescem ao nosso redor, fortalecer a reforma agrária e ampliar o acesso à terra para famílias comprometidas com a produção de alimentos saudáveis, biodiversos e culturalmente enraizados. Valorizar os saberes ancestrais também é proteger nossos territórios. Se a humanidade transformou sua história cultivando poucas espécies, imagine o que poderemos construir valorizando as mais de trinta mil espécies alimentícias existentes na biodiversidade brasileira.
Defendemos o plantio de um milhão de árvores frutíferas no Ceará; a transformação das Cozinhas Sociais em Restaurantes Sociais, integrados a Bancos de Alimentos, Bancos Comunitários e instrumentos de crédito solidário; o desenvolvimento de tecnologias baseadas em materiais sustentáveis, incluindo o cânhamo industrial, para fortalecer nossa capacidade científica, tecnológica, industrial e de defesa; e a integração dos territórios por ferrovias modernas, ampliando o turismo interno e reduzindo desigualdades.
Queremos uma economia que produza riqueza sem destruir a vida. O desenvolvimento deve servir às pessoas, diminuir desigualdades e ampliar a liberdade. Sabemos que essa proposta desafia estruturas históricas de concentração de riqueza e poder. Como demonstra Jessé Souza em sua análise da “elite do atraso”, o conflito brasileiro não é apenas econômico, mas também cultural e político. Nossa resposta será mais democracia, mais conhecimento, mais organização popular, mais solidariedade e mais soberania.
Convido você a caminhar conosco através do voluntariado nesta construção coletiva de uma terra-território chamado Abya Yala do Sul, pois aqui nunca foi de Américo e muito menos daqueles que nasceram em Abya Yala do Norte. Não lutamos apenas por uma eleição. Lutamos por uma nova civilização: uma sociedade que compreenda que a verdadeira prosperidade nasce quando nutrimos as pessoas, respeitamos a Mãe Terra e garantimos dignidade para todas as pessoas. Que Nossa Senhora Aparecida, Nosso Senhor Jesus Cristo, os Orixás e a força da Encantaria Ancestral inspirem nossa caminhada. Somos a continuidade da maratona de luta iniciada por nossos ancestrais, que romperam correntes de ferro e a violência dos capitães do mato.
Agora nos cabe romper as correntes invisíveis da fome, da destruição ambiental, da dependência e das crenças que limitam nosso futuro. Nossos antepassados resistiram. Agora é tempo de florescer! Venha carregar este patuá coletivo! Venha construir o Brasilismo! Traga suas ideias. Traga seu trabalho. Traga seu esperançar.
Talvez eu não tenha o dinheiro das grandes estruturas políticas. Tenho apenas meu corpo, minha história e a convicção de que um povo consciente é autodeterminado e pode transformar o seu próprio destino.
Vamos escrever juntos o próximo capítulo da história do Ceará e do Brasil? Porque o futuro do Brasil está na mesa, floresce na terra e se realiza quando um povo decide plantar hortas, florestas e esperança para conquistar, com as próprias mãos, a nossa Segunda Abolição Cearense e Brasileira.
